O agronegócio é frequentemente exaltado como a locomotiva da economia brasileira. Suas exportações bilionárias e seu peso na balança comercial são alardeados como pilares do progresso nacional. No entanto, uma análise fiscal e social mais atenta revela um modelo de financiamento que, apesar de gerar lucros privados para grandes produtores e bancos, representa um ônus significativo para o Tesouro Nacional e pouco retorno à sociedade. Este artigo examina os mecanismos financeiros do setor, suas distorções e seus impactos distributivos.
Receita Bilionária Sem Tributação
Em 2024, o Brasil exportou cerca de US$ 164,4 bilhões em produtos agropecuários, o que representou quase 49% das exportações totais do país. No entanto, essa cifra não resultou em arrecadação tributária direta para o Estado, já que a Constituição Federal isenta exportações de impostos como ICMS, IPI, PIS/COFINS e outros. Ou seja, trata-se de um faturamento bruto — sem contrapartida fiscal.
Crédito Subsidiado com Dinheiro Público
Para financiar essa produção massiva, o governo federal injeta bilhões no sistema de crédito rural através do Plano Safra. No ciclo 2025/2026:
Grandes produtores tiveram acesso a taxas entre 10% e 14% ao ano.
A agricultura familiar pagou juros bem menores, entre 0,5% e 5% ao ano.
A diferença entre essas taxas e o custo real do dinheiro (com Selic a 15%) é coberta pelo Tesouro via equalização de juros, um subsídio direto que, neste ano, alcançou R$ 13,5 bilhões.
Esse recurso público não é um empréstimo, mas um gasto. Ele não volta aos cofres públicos.
Os Beneficiários do Modelo
Esse sistema gera ganhos diretos para:
Latifundiários e grandes exportadores, que obtêm crédito barato para produzir commodities voltadas ao mercado externo;
Bancos, que recebem os juros acordados, parte pagos pelos produtores e parte pelo Tesouro;
Multinacionais e tradings, que controlam parte da logística e exportação, com baixa tributação sobre lucros e operações.
E a Sociedade?
Do ponto de vista social, o retorno é questionável:
A produção é majoritariamente voltada para exportação (soja, milho, algodão, carne), não para abastecimento interno;
O agronegócio é pouco intensivo em emprego e altamente concentrador de terras e renda;
A agricultura familiar, responsável por mais de 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros, recebe menos de 20% do crédito rural;
O modelo contribui para desigualdade regional e social e para o desmantelamento da soberania alimentar.
O atual modelo de financiamento ao agronegócio brasileiro é altamente lucrativo para poucos, mas representa um fracasso fiscal e social para o país. O Estado transfere bilhões para o setor sem retorno tributário direto, com impactos limitados sobre o bem-estar da população. Trata-se de uma engrenagem onde lucros são privados, mas custos são públicos.





