A narrativa da extrema-direita mantém refém a direita dita moderada, tentando empurrar goela abaixo da população uma história que exige, de quem nela crê, ignorar até mesmo a versão dos próprios autores. Se está parecendo confuso, é porque é mesmo — e proponho aqui uma reflexão para tentar trazer alguma lógica a isso tudo.
No dia 9 de julho de 2025, Trump anunciava uma taxa de 50% para produtos brasileiros que entravam nos EUA. Dentre os motivos, alegava — sem nenhum conhecimento da legislação e, ao que parece, sem qualquer familiaridade com a institucionalidade brasileira — que o governo Lula promovia uma perseguição contra o ex-presidente Bolsonaro. Sem demora, o filho “02” do ex-presidente apressou-se em postar um vídeo em suas redes sociais onde lia uma carta, colocando-se como um dos articuladores responsáveis por tal acontecimento.
Pouco tempo após a divulgação, constituiu-se uma narrativa difusa, que ao mesmo tempo celebrava a ação do governo estadunidense como uma conquista do seu campo ideológico e a expunha como um fato negativo — o que de fato é —, mas atribuía a responsabilidade ao governo Lula. Com o perdão da escatologia: é como se empanturrar de brigadeiro, fazer cocô no meio da sala, estufar o peito e dizer que a culpa é de quem fez o doce. Mas, no caso citado, não faltou juízo — ao meu ver, faltou estratégia, faltou a organização das ações que um dia marcou a extrema-direita nacional.
Hoje, nitidamente, a direita nacional se divide em dois grupos. Entre eles, não há o “menos ruim”: ambos são perversos, cada um a seu modo. Travam uma batalha na sombra disputando o mesmo eleitorado. De um lado, a extrema-direita ideológica, que segue abraçada ao clã Bolsonaro, sem soltar suas mãos; de outro, a parte que financiou o bolsonarismo — a Faria Lima, a elite reacionária que quer escantear Bolsonaro, mas não quer perder seu eleitorado.
Esses já escolheram sua chapa para 2026 e seguiam numa rota que fazia parecer que tudo já estava definido — até que os acontecimentos recentes tomaram conta das redes sociais como uma avalanche que soterrou o favoritismo de Tarcísio de Freitas. As taxações, aliadas às decisões do Congresso que prejudicaram as classes da base da pirâmide, deram um norte para um governo que vinha à deriva no mar dos acontecimentos. O PT se muniu das antigas armas: a luta de classes e o embate pela soberania contra o imperialismo — e pautou o debate nas redes sociais como nunca antes havia feito.
Me parece que houve um erro de comunicação — ou uma dissociação clara no rumo das ações. A direita da Faria Lima estava com tudo dominado, deixando pra lá a conversa de “anistia ampla, geral e irrestrita”. Havia engolido seco a patente inconstitucionalidade da matéria e aceitara a condição fundamental para que um candidato fosse apoiado por Bolsonaro: o indulto (ou graça) ao próprio. Enquanto isso, a extrema-direita ideológica, na pessoa de Eduardo Bolsonaro e seus acólitos, continuava em território estadunidense fazendo lobby contra o Brasil e pedindo sanções que fortalecessem a narrativa de que vivemos uma ditadura, onde o STF seria instrumentalizado para caçar opositores do governo.
Dadas as reações ao comunicado de Trump, é possível afirmar que não houve qualquer combinação prévia entre os atores da direita — muito menos um aviso sobre o que viria a acontecer. Romeu Zema, governador de Minas, do Partido Novo, a princípio recriminou as taxações sem atribuir culpa; num segundo momento, ajustou o discurso e tratou as taxações como se fossem culpa do país vítima — na mesma linha da resposta de Tarcísio de Freitas.
E, para encerrar — pelo menos até o momento — a loucura das narrativas, Tarcísio comunicou que iria à embaixada dos EUA no Brasil, junto com Bolsonaro — aquele que até ontem dizia que não conseguia falar sem vomitar — para tentar reverter as taxações. Isso deixa duas possíveis interpretações: ou as taxas não eram a intenção original do lobby de Eduardo Bolsonaro, e ele apenas se apropriou do fato para ganhar relevância política; ou eram, e, ao verem a repercussão negativa na sociedade — aliada ao crescimento do engajamento das esquerdas nas redes sociais — correram para tentar desfazer o estrago e recuperar algum capital político perdido.
No final das contas, alguém sairá desacreditado. Ou será o clã bolsonarista, que terá de aceitar que errou feio na condução do lobby internacional; ou será a direita “Faria Limer”, que terá que admitir que não tem capacidade de controlar o ímpeto bolsonarista. Terá de conviver equilibrando pratos entre a loucura golpista e os interesses das elites — que, como em 1964, não acham ruim a ideia de um novo golpe, desde que esteja alinhado aos seus interesses.
Neste caso, é certo que a direita amargará o oposto do sentimento que desejava acender na sociedade: ficou evidente para a população que o patriotismo bolsonarista é azul, vermelho e branco, e que eles apoiariam de bom grado uma interferência internacional na institucionalidade nacional — desde que isso garantisse manter o patriarca longe da Papuda.




